terça-feira, agosto 28, 2007

Eu sei - Sara Tavares


Eu sei...

Se eu voar, sem saber onde vou...

Se eu andar, sem saber quem sou...

se eu falar, e a voz soar com a manhã

Eu sei...

Se eu beber dessa luz que apaga a noite em mim,

E se um dia eu disser que já não quero estar aqui,

Só Deus sabe o que virá,Só Deus sabe o que será,

Não há outro que conhece tudo o que acontece em mim!

Se a tristeza é mais profunda que a dor...

Se este dia já não tem sabor...

E no pensar que tudo isto já pensei...

Eu sei...

Se eu beber dessa luz que apaga a noite em mim,

E se um dia eu disser que já não quero estar aqui,

na incerteza de saber o que fazer,

o que querer,

Mesmo sem nunca pensar, que um dia vais pensar...

Não há outro que conhece tudo o que acontece em mim...!

by Sara Tavares

sábado, agosto 04, 2007

Há muito tempo descobri que dentro de mim vivia um outro ser. E que este ser se assemelhava muito ao Peter Pan das histórias infantis. Para quem não lembra (o que é uma lástima), Peter Pan é aquele garotinho que usa uma roupa verde, que lembra a vestimenta de um bailarino clássico. Com uma faquinha na cintura e um chapéu que nunca identifiquei a origem. Pois bem, Peter é um menino que nunca quis crescer.

Em homenagem a ele, passei a chamar a outra pessoa com a qual divido este corpo, de Mary Pan. E a Mary que vive em mim, tal qual o personagem da história, nunca cresceu.

Tenho que confessar que por um certo tempo, achei que isto fosse caso para psicanalista; o que me fez conviver com Mary numa relação “secretíssima”.

Tínhamos, eu e ela, uma convivência conflitante, na qual, na maioria das vezes eu precisava frear os impulsos aventureiros a que ela me impelia. Passei por muitas situações embaraçosas, por sua causa. Da vontade de gargalhar nos momentos mais sérios; de sair correndo na rua sem ter porque; ou me lambuzar num pirulito enquanto fazia compras no supermercado.

Consegui segurar a minha Mary Pan, com competência, a ponto de sufocá-la em meu íntimo e assassiná-la por repressão.Passei então a viver uma vida de gente grande, sem lapsos de loucura.

Por um bom tempo, Mary Pan ficou esquecida dentro de mim, para que eu pudesse ser uma universitária promissora; uma esposa exemplar; uma mãe responsável; uma profissional séria. E tudo ia bem, neste ritmo em que os seres normais, nem um pouco bipolares, deveriam viver.

Até que percebi que, não só eu tinha assassinado Mary Pan, como tinha assinado a minha sentença de morte. Sim, porque ao enterrar o meu pólo infantil, nada me restara a não ser envelhecer dia após dia, até o fim. –MARY PAN, CADÊ VOCÊ?

Tratei de resgatar minha alma caçula e passei a mimá-la desenfreadamente, para que ela conseguisse trazer de volta toda a vivacidade que perdi, ao abandoná-la.

Hoje eu e Mary vivemos em harmonia. Em momentos, os seus lampejos infantis se sobressaem à minha sobriedade; noutros a minha maturidade aquieta suas atitudes tempestivas. Com isso, minha pele ganhou viço, meus olhos, brilho; meu corpo, agilidade; minha mente, sonhos; minha alma, felicidade; meu coração, paixão.

Com Mary Pan mais viva do que nunca dentro de mim, comecei a perceber que, se não todas, a maioria das pessoas guarda uma criança dentro de si.O que foi um alívio! Não só me livrou de um laudo de loucura, como me levou a descobrir muitos coleginhas de Mary Pan por este mundo.

Não sei o nome da sua criança, mas sei que existe uma em você. Perceba:

Quantas vezes você quis largar o serviço no meio do expediente para caminhar na praia ou não fazer nada? Quantas vezes você teve vontade de virar para o lado quando o relógio despertou, e dormir até não ter mais sono?Quantas vezes você teve vontade de sair andando sem rumo, juntando as pedrinhas diferentes no chão?Quantas vezes você teve vontade de dançar na fila do banco? Cantar no meio de uma reunião? Mostrar a língua pra quem o xingou? Chorar quando se machucou? Pedir colo quando desanimou? Lançar um olhar diferente para alguém que chamou sua atenção? E trocar o telefone com ele, sem dar, nem pedir explicação?

Quantas vezes você ficou olhando para o fogo até os seus olhos arderem? Para lua, procurando ver o dragão de São Jorge? Para o mar, imaginando onde ele vai acabar? Para sol saindo de dentro do mar, sem sequer se molhar?

Não sei o nome da sua criança, mas sei que existe uma em você.Deixe-a aflorar, e ame-a. Amando-a, a manterá viva. Mantendo-a viva, viverá mais. Vivendo mais, terá tempo de descobrir que a felicidade está dentro de você. Dê a ela o nome que quiser. A minha, se chama Mary Pan.

Mary Pan- Crônica Jornaleco Cultural - Léia Batista

by Miriam. Publicando, no Blog onde Léia é uma das convidadas, a sua crônica.