segunda-feira, janeiro 28, 2008


Serena tranqüilidade

Luiz Maia

Você partiu sem me dizer uma palavra. O tempo passou sem que eu entendesse sua repentina viagem. A vida correu sem novidades, sem que eu me desse conta dessa imensa saudade. Até que as notícias me chegaram como por encanto, vindas de você. Só escuto palavras bonitas, às vezes indecisas, é certo, quando se refere a mim. Chego a imaginá-la diferente de quem é, e eu, de quem de fato sou. Palavras soam como versos que me embalam, expressando amor, levando-me a falar do quanto preciso de você para seguir minha alegria. Eu fico tentando expressar meu contentamento, mas confesso que pouco saberia dizer. Como falar, por exemplo, da saudade explícita que encobre desejos latentes, que chega a doer ao vê-los sucumbir nas entrelinhas? Não, dificilmente eu saberia falar...

Quando a leio, sinto-me criança outra vez. Aí não tem como não pensar em coisas que eu supus que não devesse nem dizer, mas é tudo balela. Querida, quão absurda e preconceituosa eram minha visão de vida, meu entendimento de mundo! Eu só sei que um dia eu a quis, mas você nunca me teve. Uma vez cheguei a dizer que a vida nos oferece tantas possibilidades e só deixamos de aproveitá-las por razões meramente culturais. Mas reconheço a força da cultura de um povo sobre os ímpetos advindos da natureza. Relembro aquele beijo não dado, a sensação de calor que percorria nossos corpos na iminência de mais um doloroso silêncio que nos envolvia. Lamento pelo abraço esquecido, pelos versos desfeitos, coisas bonitas que se perderam nos caminhos escuros que certamente não escolhemos seguir.

Penso em você e sou revestido de serena tranqüilidade. Há tantos ruídos na noite, há tantos gritos que incomodam meu sono, que chego a imaginá-la bem perto a mim, a me envolver com sua alegria. Num instante eu recupero a consciência, mas aí vem você a dizer que nossas mentes não envelhecem, que nossos corpos se amoldam às circunstâncias da vida. Mas acontece que fui surpreendido com o passar do tempo, e já nem sei se eu a quis um dia. Hoje olho na velhice dos outros e noto que também caminho com certa dificuldade. Meus gestos já não obedecem ao meu comando, abracei o cansaço de vez e talvez nem me reconheça mais. Nesses dias em que penso em você, colho imagens distorcidas, mesmo na vã recordação do que fomos outrora. Por que não vejo mais as estrelas errantes, distantes que estão dos meus olhos cansados?

Luiz Maia
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msn: luizmaia1@hotmail.com
skipe: luizmaia1
Autor dos livros "Veredas de uma vida", "Sem limites para amar", "Cânticos" e "À flor da pele". Recife-PE.

domingo, janeiro 06, 2008

Mário Quintana